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CAJUQR 33
Texto da exposição

Textos de abertura

Texto curatorial e apresentação da exposição

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Texto da audiodescrição

Textos de abertura da exposição.

Caju, A Natureza de Ciro Fernandes.

A natureza de Ciro Fernandes começa antes das obras. Começa na terra onde nasceu, nas lembranças da infância em Uiraúna, no sertão da Paraíba, e no convívio com uma mãe para quem a criação já fazia parte da vida. Maria do Socorro Cavalcanti, que assinava suas pinturas como Socorro Cavalcanti, foi uma grande entusiasta das artes e uma presença decisiva na formação sensível do filho. Ciro cresceu vendo a mãe pintar e fazer bonecas, enquanto ele próprio experimentava o desenho nas superfícies que estavam ao alcance das mãos: a madeira, as paredes da casa dos avós, os muros de um casarão. Antes de conhecer os espaços instituídos da arte, sua imagem já habitava a casa e circulava pela cidade.

Há nessa origem uma proximidade entre criação e cultivo. Ciro foi criado no Sítio Canadá, nome que, segundo a memória familiar, nasceu da expressão "cana dá", porque naquela terra a cana dava em abundância. O nome guarda a lembrança de um chão fértil e de tudo aquilo que dele brota. Cana, cajus, bichos, pássaros e gente formam uma paisagem que permanecerá viva no repertório do artista muito depois de sua partida da Paraíba. Em suas pinturas e xilogravuras, a natureza reaparece atravessada pela memória, pela imaginação e pela experiência de quem aprendeu cedo a observar as formas da vida ao redor.

Essa mesma natureza também marcou sua trajetória pela falta. A seca que atingiu o sertão em mil novecentos e cinquenta e oito levou Ciro, aos dezesseis anos, a deixar a Paraíba e seguir para Natal. Depois vieram São Paulo e o Rio de Janeiro. Atravessando cidades e ofícios, o desenho continuou com ele. Foi cobrador de ônibus, soldador mecânico, operário, pintor de paredes e, ao chegar ao Rio, sustentou-se pintando bois para açougues e cartazes para o comércio. Mais tarde vieram as agências de publicidade, a direção de arte, as ilustrações para jornais, livros e discos, até que a xilogravura se tornasse uma das linguagens centrais de sua produção. O menino que desenhava animais nas paredes encontra, anos depois, na madeira entalhada, outra superfície para fazer a imagem nascer.

Entre as imagens que atravessam esse percurso, o caju retorna muitas vezes. Sua presença insistente nas obras dá nome à exposição e conduz nosso olhar para uma memória que não permaneceu parada no lugar de origem. O caju viaja com Ciro. Surge como cor, forma, lembrança e pertencimento, aproximando a Paraíba vivida na infância dos muitos anos construídos no Rio de Janeiro.

A fruta que cresce voltada para fora, deixando à vista a castanha que carrega, parece guardar algo da maneira como a memória opera em sua obra: aquilo que vem de dentro encontra continuamente uma forma de aparecer.

Os pássaros também povoam esse mundo. Voam sozinhos, acompanham mulheres, atravessam cenas e retornam em diferentes momentos de sua produção. Em dois mil e dezoito, Ciro levou uma dessas imagens de volta a Uiraúna ao construir a Catedral dos Pássaros na praça central da cidade. Há algo de circular nesse gesto. O artista que saiu do sertão ainda adolescente retorna por meio de uma imagem que o acompanhou durante a vida. Os pássaros aproximam territórios, tempos e afetos e convivem, nas obras, com barcos, peixes, plantações, figuras humanas, seres míticos e referências ao sagrado.

A natureza que aparece em Ciro não se organiza pela separação entre gente, bicho, planta, trabalho, festa ou espiritualidade. Tudo participa de um mesmo campo de existência. O mar encontra o canavial, o cotidiano encontra o mito, mulheres dividem a cena com aves, figuras religiosas e personagens da cultura popular habitam a mesma imaginação. A observação do mundo se mistura às histórias escutadas, às experiências vividas e às imagens acumuladas ao longo de décadas. É dessa mistura que sua obra retira parte de sua vitalidade.

A própria xilogravura torna essa relação ainda mais próxima da matéria. A madeira deixa de ser somente suporte e se torna matriz. É cortada, talhada, marcada e depois oferece sua superfície para que a imagem possa se multiplicar. No percurso de Ciro, a madeira acompanha o desenho desde a infância e retorna, transformada pela técnica, no centro de sua prática artística. O gesto de gravar guarda alguma coisa do cultivo: exige tempo, contato, conhecimento da matéria e atenção ao que cada superfície permite.

Caju, A Natureza de Ciro Fernandes, percorre essas permanências e deslocamentos sem procurar separar vida e obra. A exposição se aproxima da natureza como memória, matéria, território e modo de estar no mundo. Da presença de Socorro Cavalcanti às paisagens da infância, da seca que provoca a partida aos frutos e pássaros que continuam retornando, acompanhamos um artista que fez daquilo que viveu uma reserva inesgotável de imagens. Ciro saiu muito cedo da terra onde nasceu, mas algumas paisagens aprenderam a viajar com ele. Talvez seja justamente nesse movimento, entre aquilo que cria raízes e aquilo que ganha asas, que se revela a natureza de Ciro Fernandes.

Curadora, Thayná Trindade.

Caju, A Natureza de Ciro Fernandes, reúne pinturas, xilogravuras e matrizes de madeira de diferentes períodos da trajetória do artista, apresentando a relação entre sua produção artística e suas origens.

Revelamos através da exposição como as experiências da infância, a convivência com a mãe e a natureza que o cercava contribuíram para formar sua sensibilidade e seu olhar sobre o mundo. Ela está organizada em quatro núcleos interligados:

Um, Origem, que apresenta a infância de Ciro, sua relação com a mãe e as primeiras experiências com a arte.

Dois, Passaredo, dedicado aos pássaros que observa desde menino e que também evocam os caminhos e voos de sua trajetória.

Três, As Mulheres, que reúne representações femininas presentes em sua obra, em diálogo com a sensibilidade e as referências que marcaram sua formação.

E quatro, Natureza, que revela a profunda conexão do artista com a fauna e a flora, desde as paisagens do sertão até suas criações posteriores.

A mostra também inclui obras de sua mãe, Maria do Socorro Cavalcanti, e oferece uma experiência multissensorial, com elementos sonoros, olfativos e táteis. Matrizes acessíveis ao toque, audiodescrição, QR Codes, placas em braille e piso tátil ampliam as possibilidades de contato com a exposição.

Sintam-se livres para explorar ao máximo o ambiente expositivo e sejam bem-vindos à natureza de Ciro Fernandes.

Idealizadores, Mariana Lannes e Alessandro Zoe.

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